Paulo gostava de livrarias, pois era um ávido leitor. Estantes e mais estantes cheias de livros, ah!, o que não eram, senão um magnífica visão? O conhecimento estava ali reunido! E estava à venda: era só escolher uma obra, pagar por ela e seria possível levá-la para casa. Os livros estavam, então, ao seu alcance, e daqueles que pudessem - e quisessem - pagar.
Alguns livros podiam ser bem caros, principalmente para um simples estudante como Paulo. Mesmo assim, era possível a ele adquirir três ou quatro livros por mês. Edições mais simples, sem dúvida, mas o importante era o conteúdo.
Numa manhã fria e sem graça de um sábado qualquer, Paulo vagou, como fazia todas as vezes, pelas mais diversas seções de livros da maior livraria da cidade. Alguns autores que desconhecia eram logo verificados: se parecessem interessantes, anotava seus nomes para buscar mais informações sobre eles, depois. Se não, eram, por ora, abandonados. Talvez pudessem receber uma segunda chance num futuro próximo.
Apanhou um livro de um escritor que não conhecia, e se sentou em uma das poltronas gentilmente dispostas pela livraria.
Abriu-o na primeira página da história, capítulo 1. Logo nas primeiras linhas percebeu que não era um livro qualquer. A escrita era rápida, os eventos aconteciam numa sucessão assombrosa, e descreviam uma realidade cruel. "Mas que começo de narrativa!". Era um autor estreante, como Paulo pôde constatar, mas já escrevia com grande propriedade.
Depois de ler uma grande parte do capítulo 1 ininterruptamente, Paulo ergueu os olhos para uma olhadela rápida pela livraria. E uma cena em especial chamou-lhe a atenção:
Uma garota, mais ou menos da sua idade, lia vorazmente um grande volume de um obra desconhecida. Os lábios da garota balbuciavam as letras, as palavras, as frases que ia lendo rapidamente, entremeando sorrisos em passagens mais interessantes e divertidas. Paulo alegrou-se com a visão. Era entusiasmante ver alguém se entregar tanto a uma história a ponto de se esquecer da realidade à sua volta, esquecer-se que estavam em uma livraria, e que talvez aquele livro não pudesse ser seu, mesmo que se gostasse tanto assim dele.
Enquanto ela lia e se alegrava, e Paulo a observava e também se alegrava, duas pessoas entraram na livraria e falaram algo com a garota. Pareciam ser seus pais. A jovem relutantemente fechou o livro-que-não-poderia-ser-seu, após ler a última frase, e guardou-o em seu lugar de origem. Foi embora visivelmente triste, com seus pais.
Depois que saíram, Paulo se levantou e, ainda carregando o livro de antes, caminhou até a estante onde a garota tinha recolocado a fonte de sua alegria dos últimos minutos. Sorriu satisfeito ao ver o livro. Era Mensagem, de Fernando Pessoa. Não sabia se iria ver a garota novamente, mas Paulo tinha certeza de que, cada vez que lesse qualquer verso do escritor português, a imagem retornaria vívida à sua mente, e um sorriso perpassaria, então, seus próprios lábios, mesmo antes de terminar qualquer poema.
Alguns livros podiam ser bem caros, principalmente para um simples estudante como Paulo. Mesmo assim, era possível a ele adquirir três ou quatro livros por mês. Edições mais simples, sem dúvida, mas o importante era o conteúdo.
Numa manhã fria e sem graça de um sábado qualquer, Paulo vagou, como fazia todas as vezes, pelas mais diversas seções de livros da maior livraria da cidade. Alguns autores que desconhecia eram logo verificados: se parecessem interessantes, anotava seus nomes para buscar mais informações sobre eles, depois. Se não, eram, por ora, abandonados. Talvez pudessem receber uma segunda chance num futuro próximo.
Apanhou um livro de um escritor que não conhecia, e se sentou em uma das poltronas gentilmente dispostas pela livraria.
Abriu-o na primeira página da história, capítulo 1. Logo nas primeiras linhas percebeu que não era um livro qualquer. A escrita era rápida, os eventos aconteciam numa sucessão assombrosa, e descreviam uma realidade cruel. "Mas que começo de narrativa!". Era um autor estreante, como Paulo pôde constatar, mas já escrevia com grande propriedade.
Depois de ler uma grande parte do capítulo 1 ininterruptamente, Paulo ergueu os olhos para uma olhadela rápida pela livraria. E uma cena em especial chamou-lhe a atenção:
Uma garota, mais ou menos da sua idade, lia vorazmente um grande volume de um obra desconhecida. Os lábios da garota balbuciavam as letras, as palavras, as frases que ia lendo rapidamente, entremeando sorrisos em passagens mais interessantes e divertidas. Paulo alegrou-se com a visão. Era entusiasmante ver alguém se entregar tanto a uma história a ponto de se esquecer da realidade à sua volta, esquecer-se que estavam em uma livraria, e que talvez aquele livro não pudesse ser seu, mesmo que se gostasse tanto assim dele.
Enquanto ela lia e se alegrava, e Paulo a observava e também se alegrava, duas pessoas entraram na livraria e falaram algo com a garota. Pareciam ser seus pais. A jovem relutantemente fechou o livro-que-não-poderia-ser-seu, após ler a última frase, e guardou-o em seu lugar de origem. Foi embora visivelmente triste, com seus pais.
Depois que saíram, Paulo se levantou e, ainda carregando o livro de antes, caminhou até a estante onde a garota tinha recolocado a fonte de sua alegria dos últimos minutos. Sorriu satisfeito ao ver o livro. Era Mensagem, de Fernando Pessoa. Não sabia se iria ver a garota novamente, mas Paulo tinha certeza de que, cada vez que lesse qualquer verso do escritor português, a imagem retornaria vívida à sua mente, e um sorriso perpassaria, então, seus próprios lábios, mesmo antes de terminar qualquer poema.
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